SUPPLY CHAIN NA ERA DIGITAL

23/11/2017 [Actualité] Voltar

Tendências e Transformações

A Era digital já se faz perceber em todos os elos da Supply Chain e promete uma revolução na disciplina, nos anos a seguir. Serão analisadas, neste artigo, algumas grandes transformações em curso, que contêm sinergias importantes com a complexidade da logística multimodal: ampla visibilidade dos fluxos, omnichannel, computação móvel, logística autónoma, economia colaborativa e influência do digital na forma de trabalhar das equipes de Supply Chain.

0 impacto do mundo digital nas cadeias de suprimento é uma realidade há anos. O e-commerce já completa a sua segunda década de existência, convertendo uma parcela cada vez maior de consumidores e representando a experiência padrão de compra dos chamados “nativos digitais".

O uso de sistemas de análise, planejamento e otimização permeia boa parte das Supply Chains, ainda que aplicados a silos isolados e com pouca integração entre os parceiros da cadeia. A transmissão eletrônica de dados, embora ainda distante da plena aplicação, é um imperativo para gerenciar a quantidade de informação e a complexidade dos fluxos de distribuição, ainda mais em contextos multimodais.

No entanto, a difusão acelerada de dispositivos inteligentes e conectados, as gigantescas massas de dados disponíveis e os saltos de aprendizado das advanced analytics devem radicalizar de forma ainda mais profunda, a transformação da Supply Chain. O enraizamento do universo digital em todos os momentos do cotidiano promete mudar, inclusive, a maneira como as equipes de logística e Supply Chain trabalham e desenvolvem projetos.

Serão detalhadas, a seguir algumas tendências da Supply Chain digital, que devem conduzir essa transformação, nos próximos anos.

SUPPLY CHAIN VISIBILITY: MAIOR INTEGRAÇÃO DA CADEIA

Após muitas promessas e poucos avanços no passado, a revolução digital está enfim viabilizando um aumento significativo da visibilidade sobre os fluxos da Supply Chain. O círculo virtuoso de redução de custo e a adoção em larga escala de sensores inteligentes possibilitam a coleta de uma imensa massa de dados. Se bem explorados, esses dados podem servir de valiosíssimo instrumento de apoio à decisão.

As soluções técnicas de detecção automática (image recognition, 3D scanning, Radio-Frenquency Identification (RFlD)) estão se integrando não somente aos sistemas de gestão tradicionais da empresa (Enterprise Resource Planning (ERP), Warehouse Management System (WMS)), mas também "às poderosas ferramentas de análise de dados e machine learning. Como resultado, as empresas adeptas da Supply Chain visibility conseguem a otimização e a sincronia em seus processos, assim como consideráveis reduções de estoque e diminuição das perdas, ao longo de seus processos. Os benefícios decorrentes - melhor serviço e visibilidade para o cliente, necessidade reduzida em capital de giro, maior facilidade na gestão de fluxos multimodais - acabam por rentabilizar o investimento em sensores, leitores e sistemas de análise.

Com relação ao compartilhamento dessa massa de dados entre os parceiros da Supply Chain, o blockchain desponta como uma promessa interessante. Essencialmente um banco de dados compartilhado entre várias partes, com garantia matemática do histórico das informações, ele é o princípio de funcionamento das criptomoedas, como o Bitcoin. O blockchain pode mapear todas as transações referentes ao produto, desde a extração da matéria-prima até a venda ao consumidor final. Esse mesmo consumidor; cada vez mais ávido por detalhes sobre o que consome, pode se aproveitar do blockchain, para se assegurar de que a produção de sua roupa não se deu em locais com denúncias de trabalho escravo ou para verificar se a origem de sua refeição é realmente orgânica.

As empresas que se aproveitarem dessa tecnologia poderão usá-la como “máquina de confiança” e certificado de garantia do seu diferencial, criando valor para os seus clientes.

OMNICHANNEL E MOBILE COMPUTING: A REVOLUÇÃO DIGITAL DO PONTO DE VISTA DO CONSUMIDOR

No entanto, o apetite dos consumidores não está somente associado aos detalhes de seu produto. Esses clientes da Era digital, munidos de um pequeno supercomputador em seus bolsos, exigem uma experiência sem fronteiras entre a internet e as lojas físicas. A Supply Chain omnichannel ou a integração completa entre os diferentes canais de venda da empresa, chegou para ficar e é o principal desafio do momento, A complexidade é enorme, mas as companhias que se destacarem em serviços, como o buy online, pick up store, e na transformação de suas lojas em "centros de experiência", colherão os frutos de uma fidelização acentuada de seus clientes.

Esse “pequeno supercomputador", que empodera e enriquece os clientes finais de informações a todo instante, também é uma alavanca para revoluções nos processos logísticos das empresas. Para evitar custosos insucessos e reenvios já existem serviços de entrega que monitoram o posicionamento do cliente em uma dada área, por meio de seu celular, e garantem que a encomenda seja recebida em mãos, estando em sua casa, trabalho ou, até mesmo, em um parque.

Em busca de ganhos de produtividade e visibilidade, o mobile computing também se infiltrou nas operações de centros de distribuição (CD) por meio de dispositivos mais inteligentes e intuitivos. Isso pode trazer fim a um paradoxo para o picker, que faz uso de um smartphone na sua vida pessoal, mas ao chegar ao trabalho, depara-se com uma tela de AS/400, exibida em um visor monocromático.

LOGÍSTICA AUTÓNOMA: REDESENHANDO AS OPERAÇÕES COM AS POSSIBILIDADES DO DIGITAL

O mobile computing, entretanto, é somente a ponta do iceberg de uma gigantesca transformação digital já em curso na logística. A aplicação da robótica em CDs surgiu para quebrar o paradigma de que a automação está necessariamente associada à perda de flexibilidade: robôs podem interpretar uma miríade de dados, tomar decisões cada vez mais complexas e executar processos customizados. Verificar a integridade de uma caixa ou a validade de um produto são tarefas corriqueiras para esses novos recursos do CD.

Por sua vez, a onda crescente dos veículos autônomos, abrangendo diversos modais de transporte, configura-se como uma revolução inescapável da logística, ainda que com um longo caminho a percorrer; em termos regulatórios. Drones de entrega, caminhões sem motorista e trens de carga automáticos se valem de um sofisticado conjunto de sensores, coletando volumes significativos de dados, para compreender o mundo físico em seu entorno. A ausência de condutores e a otimização do uso dos ativos de transporte - veículos autónomos podem se deslocar praticamente 100% do tempo, sem interrupções - prometem criar benchmarks de custos de transporte completamente diferentes dos atuais. A tendência trará ganhos óbvios para o consumidor final, sempre descontente com os valores de frete.

Por mais que a robótica e os veículos autónomos ainda soem como uma promessa futurista distante, as aplicações pragmáticas resultantes dos avanços nessas áreas já são realidade (e não somente nos recorrentes exemplos da Amazon). Players tradicionais da logística, como DHL, Linde e FM Logistic, testam soluções de inventário com drones e image recognition, automatizando uma das tarefas com menor valor agregado nos CDs. também estão em leste alternativas híbridas de separação, usando robôs que acompanham os pickers e suportam o peso do pedido. Aplicações como essas estão transformando e aprimorando as famigeradas condições de trabalho dos profissionais de logística.

COMO A ERA DIGITAL ESTA REVOLUCIONANDO A MANEIRA DE TRABALHAR DOS PROFISSIONAIS DE SUPPLY CHAIN

O mundo digital certamente tem impactos na forma de trabalhar dos profissionais de logística e Supply Chain para muito além dos centros de distribuição. Como mencionado, o Big Data o a popularização de algoritmos sofisticados de deep learning proporcionam saltos de capar idade analítica das empresas, revolucionando as rotinas e a importância dos analistas de Supply Chain, que se tornam cada vez mais "cientistas de dados".

As inovações do universo digital também têm o potencial de transformar uma disciplina sempre muito complexa, quando envolve a cadeia de suprimentos: a gestão de projetos. O Scrum, metodologia de organização de projetos oriunda do mundo de desenvolvimento de software, ganha popularidade entre os gestores de Supply Chain graças aos resultados rápidos, flexíveis e evolutivos, que produz em contrapartida à gestão de projeto tradicional "em cascata".

Ainda sobre as relações de trabalho na logística e Supply Chain, o advento da economia colaborativa, possibilitado pela facilidade de comunicação e compartilhamento de informações do mobile computing, é um pilar de transformação inegável e extremamente atual. Empresas atuando no ramo do chamado social delivery, como a Loggi e a Shippify já produzem profundos impactos no cenário brasileiro, bastante afetado pela crise e com excedente de disponibilidade no mercado de trabalho. Outro exemplo interessante é o atendimento da demanda do e-commerce varejista, por meio da parceria entre shoppers autónomos e plataformas, como o Instacart (o chamado Uber do varejo) e o Supermercado Now.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A conversão da Supply Chain tradicional em uma disciplina plenamente digital não será uma transição suave. Aplicações de robótica e veículos autónomos não estão livres de riscos ou problemas sociais, e a legislação trabalhista ainda sofre para acompanhar a explosão da economia colaborativa. Porém, esses são exemplos de que o impacto digital na cadeia de suprimentos e muito mais amplo do que a simples propagação de gadgets e devices por toda a parte,

A Era digital remodelará as fundações da Supply Chain e, da mesma forma que penalizará as empresas que dispensarem tudo isso como "delírio tecnológico", recompensará aquelas que desbravarem as inúmeras possibilidades desse universo ainda tão pouco conhecida

 

Rodrigo Valente Zero
Formado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e pela École des Ponts et Chaussées, na França, possui 4 anos de experiência na Diagma, consultoria especializada em logística e Supply Chain.
rzero@diagma.com

 

Referências

 (BCG, DHL, Emarketer, Geodis, GT Nexus, Kantar Worldpanel Comtech)